Esta semana, mais especificamente no dia 10 de dezembro, comemorou-se o Dia do Tokaji Aszu. A história do vinho Tokaj está profundamente enraizada na Hungria e um terroir que suporta uvas botrytizadas, ou seja, uvas que passam por um processo conhecido como podridão nobre.
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Na podridão nobre as uvas são atacadas por um fungo chamado Botrytis Cinerea, que se aloja na casca durante a maturação, causando a podridão das uvas. Este processo depende do clima e condições necessárias do local onde a vinha está plantada, como ocorre, por exemplo, na produção dos Sauternes em Bordeaux.
O Tokaji já foi um dos vinhos mais importantes do mundo. Um vinho cobiçado por reais e nobres, incluindo nobres húngaros como Ferenc Rákóczi II, Pedro - o grande czar russo, o rei Luís XIV, Catarina a Grande na Rússia e até o compositor austríaco Joseph Haydn (que recebeu alguns pagamentos sob forma de vinho). Os vinhos doces de Tokaj fornecem a história mais convincente do papel da Hungria na história moderna do vinho.
Acredita-se que o começo do século XVII o Tokaji Aszú tenha sido o primeiro vinho de uva botrytizado do mundo. A viticultura na região de Tokaj, na Hungria, remonta à época do Império Otomano, durante os séculos XVI e XVII. Contudo, só temos o primeiro registro quando Lady Zsuzsánna Lórántffy, que foi pioneira nesse tipo de vinho por volta de 1630 ou 1650, atrasou a colheita das uvas para o outono, permitindo que a podridão nobre afetasse mais uvas. Durante o século XVII, 27 comunidades diferentes rotularam seus vinhos Tokaji, e os vinhedos individuais foram classificados no século seguinte.
A popularidade deste vinho veio no século XVIII, quando os vinhos doces eram incrivelmente populares e os vinhos Tokaji estavam sendo servidos nas cortes dos reis franceses e dos czares russos e franceses. Há inclusive a citação de Louis XIV que o considerava "o vinho dos reis".
Entretanto, em meados do século XIX, a região de produção do Tokaj na Hungria foi afetada pela Phylloxera, a famosa praga prejudicial às videiras. A recuperação da região foi desacelerada por duas guerras mundiais e subsequente controle soviético, sob o qual a produção de vinho se concentrou na quantidade em detrimento da qualidade.
O retorno da demanda pelo Tokaj veio no século XX. Alguns produtores e enólogos mantiveram suas tradições por essas décadas difíceis, e o colapso da União Soviética por volta de 1989 viu o início de um ressurgimento dos Tokaji. Investidores estrangeiros – entre eles Jacob Rothschild, o escritor britânico de vinhos Hugh Johnson e o enólogo de Bordeaux, Peter Vinding-Diers- se destacaram com os enólogos locais para formar a Royal Tokaji Wine Company. Nos anos seguintes, os estrangeiros continuaram a injetar dinheiro em Tokaj, trazendo o vinho de volta da obscuridade.
O mais desejável desses néctares (e o mais caro) é o de Tokaji Eszencia, uma pasta líquida que contém tanta doçura quanto um xarope. É tão intenso que Eszencia normalmente é apreciado em uma colher de sopa. Devido ao alto teor de açúcar, ele pode envelhecer por mais de 200 anos.
♦ COMO OS VINHOS TOKAJI ASZÚ SÃO FEITOS?
A região de Tokaj talvez seja mais famosa pelo processo exclusivo de vinificação usado para produzir seus vinhos Tokaji Aszú.
1. Colheita Selecionada ou Escolha: As uvas botrytizadas, conhecidas como bagas de Aszú ou uvas Aszú, são escolhidas a dedo no outono. No entanto, não são todas as uvas que podem passar por esse processo. No caso do Tokaji, são utilizadas as variedades: Furmint (que ocupa 60% da área), Hárslevelű (ocupa 30% e é conhecida também como Feuille de Tilleul) e Yellow Muscat ou Muscat Lunel. A colheita das uvas botrytizadas ocorre de forma manual, onde são escolhidos apenas os melhores bagos. Sendo as uvas levadas para um processo de maceração, entre 12 até 60 h.
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2. Fazendo uma pasta: as uvas botrytizadas são amassadas formando uma pasta.
3. Segunda colheita: Durante esta fase de produção de vinho base, as uvas não afetadas por Botrytis são colhidas e prensadas para a produção de um vinho base.
4. Imersão da Pasta em Vinho Base: A pasta de uva botrytizada é embebida no vinho base por pelo menos oito horas e até três dias.
5. Segunda Fermentação: O vinho com a pasta de uvas botrytizadas é levado a fermentar pela segunda vez. Os altos níveis de açúcar e as condições frias das adegas significam que a fermentação ocorre lentamente durante um período que pode durar de meses a anos.
6. Envelhecimento: O vinho resultante deve ter envelhecimento em barris de carvalho húngaro por pelo menos dois anos e depois mais um ano na garrafa antes de ir ao mercado.
♦ VARIAÇÕES DA VINIFICAÇÃO DOS TOKAJI: Dois dos melhores vinhos de Tokaj seguem um método ligeiramente diferente: Tokaj Eszencia e Tokaj Aszú Eszencia (também descritos como Tokaj Essencia). O melhor dos melhores, Tokaj Eszencia é feito apenas durante anos em que uvas em quantidade suficiente foram infectadas com Botrytis para que o vinho possa ser feito apenas com essas uvas.
As uvas afetadas são colocadas em um barril e o suco destas uvas passas - que tem um teor de açúcar de 45 % - é fermentado para criar Tokaji Eszencia, um vinho incrivelmente raro e caro, sem serem imersas em vinho base. Um pouco mais comum é a Tokaji Aszú Eszencia, feito a partir da mistura do vinho base de uvas não botrytizadas e parte do vinho de Tokaji Eszencia.
♦ AS UVAS USADAS PARA CRIAR O TOKAJI ASZÚ:
As variedades de uva mais importantes da região são as usadas para fazer Tokaji Aszú. Em ordem de importância, eles são:
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1. Furmint: Esta uva branca na colheita tardia é propensa a Botrytis e representa 60 % das vinhas na região, tornando-a a uva dominante nas misturas de Aszú. A acidez natural da Furmint ajuda a equilibrar a doçura dos vinhos Tokaji. As uvas não-botrytizadas também são transformadas em vinhos secos varietais.
2. Hárslevelű: Descendente de Furmint, essa uva branca também é ácida e propensa a Botrytis, mas mais aromática com um perfume frutado e florido. Como Furmint, Hárslevelű também é transformada em vinhos varietais.
3. Sárga Muskotály: Também conhecida como Muscat Blanc à Petit Grãos, essa variedade aromática e ácida é usada principalmente para saborizar as misturas.
4. Zéta: Também conhecida como Oremus, essa variedade, suscetível a Botrytis, foi permitida em Tokaji Aszú a partir de 1993.
Esse é o Tokaji, sendo o termo Aszú uma palavra húngara para bagas murchas e afetadas por botrytis e o vinho resultante que elas fazem. Daí o Tokaji Aszü. Que faz parte de uma das classificações atuais desses vinhos após a eliminação do Termo Puttonyus que regulamentava o grau de açúcar do vinho, sendo agora classificada como: Eszencia; Aszú; Szamorodni Édes; Fordítás Édes; Máslás Édes; Késői szüretelésű bor.
Essas classificações vão determinar a forma de produção e o nível de açúcar residual desse néctar.
♦ MAS, O QUE SÃO OS PUTTONYOS?
Puttonyo ("Cesto") é um termo antigo usado na Hungria para descrever a doçura dos vinhos Tokaji Aszú. A maioria dos vinhos de Aszú é feita misturando uma pasta de uvas botrytizadas com vinho base. O número de Puttonyos referia -se à quantidade de cestos de pasta usada na mistura - mais pasta, mais doce o vinho. Hoje, apenas cinco e seis Puttonyos são permitidos em rótulos, sendo cinco Puttonyos contendo 12 a 15 % de açúcar residual e seis Puttonyos contendo 15 a 18 %.
Então, se você vir um vinho rotulado como "Tokaji Aszú 5 Puttonyos" ou "Tokaji Aszú 6 Puttonyos", com certeza será muito doce, e produzido antes da alteração da regulamentação.
♦ OUTROS VINHOS TOKAJI
Hoje, o vinho doce não é tão popular quanto durante o século XVIII, e a mudança climática limitou o número de uvas botrytizadas disponíveis, tornando o Tokaji um vinho que era raro, ainda mais raro (e portanto, caro!). O Tokaji Aszú compreende apenas cerca de 10 % da produção de vinho da região de Tokaj.
As uvas usadas para fazer Tokaji Aszú também podem ser transformadas em vinhos brancos seco e semi-doce em vários estilos. Por exemplo, Szamorodni ("à medida que cresce") é fabricado sem separar as uvas botrytizadas dos não-botrytizados. Szamorondni pode ser seco, semi-seco ou semi-doce, e é tradicionalmente amadurecido sob um véu de leveduras, tornando-o um pouco oxidado (como Jerez).
Em geral, o Tokaji feito com uvas botrytizadas é um vinho muito untuoso de coloração dourada, com notas de casca de laranja, frutas cítricas, amêndoas, nozes e damasco. Um verdadeiro néctar dos Deuses! Saúde!!! Aproveite para comentar se gostou ou não!!! (Este artigo está baseado em material disponível na internet, e minhas considerações durante a prova dos vinhos e pesquisas).
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